Opinião: Da memória e do afeto - porque o esporte também é feito de histórias
Mais do que resultados, participação do Time Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 será marcada pela alegria, carinho e memória que despertará em todos os torcedores daqui para frente.

Gabriel Heusi/COB
*Por Gustavo Longo, especialista em Jogos Olímpicos de Inverno
Entre tantos momentos que o Time Brasil proporcionou aos seus torcedores ao longo dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026, um deles chamou minha atenção. A roupa utilizada pelos atletas brasileiros na Cerimônia de Abertura foi doada ao Museu Olímpico, em Lausanne (Suíça), para exposição a seus visitantes. A partir de agora, quem passar pelo local poderá admirar a vestimenta que encantou torcedores, viralizou nas redes sociais e antecipou o que seria uma edição histórica para os esportes de inverno do país.
É apenas o terceiro item referente ao Brasil no local, juntando-se a outros dois momentos especiais do esporte nacional: a roupa utilizada por Jackie Silva na final do vôlei de praia feminino em Atlanta 1996 (a primeira medalha dourada de uma mulher brasileira) e o collant de Rebeca Andrade utilizado em Paris 2024 (quando ela se tornou a maior medalhista da nossa história). Uma lista bem restrita e seleta, mostrando que as modalidades de neve e de gelo estão ganhando seu espaço dentro do país.
Para além da beleza incontestável do traje cocriado pela Moncler, sob direção criativa de Remo Ruffini, e pelo estilista brasileiro Oskar Metsavaht, o que está em jogo também é a emoção que a passagem brasileira em Milão-Cortina 2026 está causando não apenas entre nós, mas em todo mundo. De histórias inspiradas, como a de Bruna Moura, a feitos inéditos, como o ouro de Lucas Pinheiro Braathen, passando por despedidas e novidades, a alegria brasileira foi contagiante desde antes da abertura e prosseguiu até o momento.
O esporte impacta uma determinada sociedade/comunidade pelos seus resultados, evidentemente, mas também pelo afeto que desperta nas pessoas (entre outros fatores). Acompanhamos as modalidades e atletas que despertam “bons sentimentos” na gente, seja alegria, pertencimento, orgulho, inspiração etc. E quando gostamos, fazemos daquilo uma parte importante da nossa vida – seja assistindo aos jogos, buscando notícias ou interagindo nas redes sociais. Grandes ídolos e esportes considerados ‘grandes’ não recebem este status à toa. Eles se tornaram algo maior do que a mera disputa num tablado, gramado, pista ou ginásio.
E o que traz afeto vira memória. Quando falamos que grandes feitos entram para a história é justamente por isso: serão sempre lembrados com carinho por quem viveu, testemunhou e torceu naquele momento – e posteriormente passados adiante por histórias, vídeos, reportagens e conversas. Quem gosta de esporte sempre terá momentos que ficam eternizados na mente.
Em Milão-Cortina 2026, pela primeira vez os esportes de inverno do Brasil tiveram a oportunidade de impactar os torcedores de forma irrestrita. A exposição na mídia, ações como a Casa Brasil em Milão e, evidentemente, os resultados esportivos mostraram às pessoas que é possível manter nossas características mesmo em cenários que não são associados ao país. O carisma contagiante de Lucas Pinheiro Braathen, Pat Burgener, Nicole Silveira e companhia na Cerimônia de Abertura exemplificam isso. O que se viu depois nas arenas esportivas apenas confirmou esse sentimento inicial.
O esporte não é apenas uma atividade biomecânica e fisiológica. Ele é uma narrativa, conta sua história e se relaciona com sua comunidade, impactando e sendo impactada por ela. A partir do que estes atletas demonstraram ao longo de mais de duas semanas nos Jogos Olímpicos de Inverno, as modalidades de neve e de gelo terão uma oportunidade única para finalmente serem lembradas e olhadas com afeto pela grande maioria dos torcedores.












