Sem “musas” e com mais ícones: III Fórum Mulher no Esporte debate representatividade feminina na sociedade
Painel discutiu como mídia e marcas influenciam a forma como mulheres são retratadas no esporte e o impacto dessas narrativas na visibilidade e nas oportunidades para atletas

A forma como mulheres atletas e profissionais do esporte são retratadas pela mídia e pelas marcas foi o tema central de um dos painéis do III Fórum Mulher no Esporte, realizado pelo Comitê Olímpico do Brasil. A discussão abordou o conceito de Gender Portrayal (Diretrizes de Representação de Gênero) e promoveu uma reflexão sobre como narrativas, enquadramentos e estratégias de comunicação podem influenciar percepções sociais, oportunidades profissionais e a criação de referências para meninas e jovens.
Levantada por Manoela Penna, diretora de Comunicação, Marketing e Valores Olímpicos do COB, uma pergunta ressoou entre as participantes: o que você mudaria amanhã pensando nesse tema.
E a resposta de Jéssica Silva, Gerente Sênior de Originals e Lifestyle na adidas Brasil, uma das painelistas, arrancou aplausos da plateia. “A primeira vez que alguém te perguntar qual seu ícone do esporte, todo mundo pensasse em uma mulher. Falamos de geração, de mudanças, mas isso começa em como a gente ensina as novas gerações. Até pensando nas mulheres: como a gente sempre coloca uma mulher na frente, mas que, de novo, isso não seja uma coisa para mulheres — que seja para os homens, que seja para todo mundo”, disse.
Jéssica Silva, da adidas, com a nova camisa em parceria com o Time Brasil - Foto: Juliana Ávila/COB
Além delas, o painel contou com Adriana Samuel, duas vezes medalhista olímpica de vôlei de praia - prata em Atlanta 1996 e bronze em Sydney 2000 - e empreendedora social; Marcela Zaiden, diretora de Planejamento Executivo e Gestão de Elenco Esporte da Globo; e Vanessa Melo Viana, Superintendente Nacional de Trajetória e Desenvolvimento da CAIXA.
“É preciso entender enquanto patrocinador, enquanto pessoas que têm influência no repertório que a gente forma na sociedade, isso precisa, de fato, ser de propósito. É de propósito que eu preciso comunicar algo que seja avesso a estereótipos, é de propósito que eu preciso comunicar histórias de resiliência, de disciplina e de formação de ambientes. Quando a gente age de forma intencional, conseguimos recompor essa balança desproporcional que, muitas vezes, traz as mulheres como algozes”, disse Melo Viana.
Vanessa Melo Viana, Superintendente Nacional de Trajetória e Desenvolvimento da CAIXA - Foto: Juliana Ávila/COB
Historicamente, a cobertura midiática e as estratégias de marketing esportivo têm reforçado estereótipos de gênero, muitas vezes invisibilizando conquistas esportivas femininas ou priorizando aspectos estéticos e pessoais em detrimento do desempenho, da competência e da liderança das atletas. A discussão buscou analisar criticamente esse cenário e destacar a responsabilidade editorial e institucional na promoção de uma cultura esportiva mais justa, diversa e inclusiva.
“Mulher comentarista não precisa comentar só jogo feminino. Assim como o homem também tem que comentar jogo feminino e vice-versa. Mas se a gente olhar para a cobertura, os espaços ainda são muito menores. Se compararmos com as competições masculinas, o número de transmissões é totalmente inferior”, afirmou Adriana Samuel, que contou a dificuldade que teve, mesmo após o sucesso como atleta, para se livrar do “sobrenome” irmã do Tande, campeão olímpico em Barcelona 1992 no vôlei de quadra.
Adriana Samuel, duas vezes medalhista olímpica - Foto: Juliana Ávila/COB
“Eu parei de jogar há quase 20 anos. Só nos Jogos Olímpicos de Tóquio que eu vi uma reportagem sobre mim em que não havia citação do meu irmão. Isso nunca me atrapalhou em nada, e eu tenho muito orgulho da minha trajetória e do meu irmão também, mas foram necessários muitos anos para que eu pudesse ler uma matéria sem esse ‘sobrenome’”.
A reflexão também abordou como o esporte feminino muitas vezes aparece na mídia apenas em contextos específicos ou temáticos, o que limita a visibilidade das atletas e dificulta a construção de referências amplas para a sociedade.
“Se eu pudesse mudar alguma coisa amanhã seria acabar com o termo ‘musa’, ‘namorada’, ‘irmã’ em qualquer reportagem. Não há mais espaço para isso. As mulheres acabam virando um tema e a mudança passa por como a gente ensina e por como a sociedade passa a olhar para essas referências”, destacou Marcela Zaiden.
Por fim, outro ponto ressaltado foi a importância de ampliar o interesse e o engajamento do público nas competições femininas, equiparando a atenção dedicada a eventos masculinos.
“A gente precisa ter, como sociedade, a mesma disposição de assistir a uma final de Copa do Mundo de futebol e também acompanhar uma final com a seleção feminina”, concluiu Mariana.
Manoela Penna foi mediadora do painel sobre representatividade feminina - Foto: Juliana Ávila/COB
O Brasil será sede da Copa do Mundo Feminina de Futebol em 2027.












