Opinião: Jogos Olímpicos de Inverno: o palco natural das tragédias e comédias
Bastou o primeiro dia dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 para surpresas acontecerem e reforçarem o quanto a natureza é, de fato, o palco perfeito para a glória – e a tristeza – esportiva

Foto: Christophe Pallot/Agence Zoom/Getty Images
*Por Gustavo Longo, especialista em Jogos Olímpicos de Inverno
O suíço Marco Odermatt estava dominante no esqui alpino. A eslovena Nika Prevc era a principal favorita no salto de esqui. A neerlandesa Joy Beune era a campeã mundial dos 3000m na patinação de velocidade. Todos candidatos a estrelas do primeiro dia dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 – e os três com frustração no rosto após suas provas.
Bastou apenas um dia Olímpico para alguns dos favoritos sucumbirem. Nika Prevc ainda levou a prata para casa; Odermatt e Beune sequer entraram no pódio. A tristeza deles deu lugar para a alegria de Franjo von Allmenn no esqui alpino, da norueguesa Anna Odine Strom no salto de esqui e de Francesca Lollobrigida na patinação de velocidade. Os três comemorando suas primeiras medalhas de ouro na carreira.
Respeitando suas origens gregas, os Jogos Olímpicos são o palco perfeito para as tragédias e comédias em todo seu sentido dramático. Voltas por cima, quedas e vitórias são uma constante ao longo dos 17 dias de evento. A questão é que nos esportes de inverno esse palco é ao ar livre – o que torna tudo ainda mais imprevisível.
Torcer nos esportes de inverno é reconhecer que a direção do vento pode custar uma medalha Olímpica. Ou que o gelo mais duro ou mais mole pode impactar no seu desempenho. Em PyeongChang 2018, por exemplo, o bobsled brasileiro fazia tempos de top 20 na disputa do 4-man, até que uma mudança de três graus na temperatura externa apenas no dia da prova pôs tudo a perder – ficou em 23º após se recuperar no segundo dia.
Resultados inesperados acontecem em todas as modalidades – e é o que torna o esporte tão fascinante em todo o mundo. Mas nos Jogos Olímpicos de Inverno, as condições climáticas representam um fator a mais de risco na prática das modalidades. Começou a nevar? O salto no snowboard halfpipe pode ficar comprometido. Vento está forte? O downhill do esqui alpino pode até ser cancelado. Aumentou a temperatura? A pista de bobsled não estará nas mesmas condições do treino.
Claro, é um elemento inerente à característica destes esportes. Como já me falaram, só faltava não ter neve num esporte de neve! A questão é justamente como, quando e onde essa neve vai cair (ou ventar, esquentar etc.). Fazer a leitura na hora e eventualmente trocar a estratégia prestes a competir é uma habilidade para poucos. Muitos favoritos ficam pelo caminho justamente pela demora em compreender essa nova realidade.
É mais um ponto que nós, brasileiros, precisamos aprender nos próximos dias dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026. A equipe do Time Brasil recebeu a melhor preparação possível e chega na sua melhor forma, com resultados históricos em todo ciclo. Mas como já cansou de dizer nossa estrela Nicole Silveira, “é preciso pensar dia a dia”. O sucesso anterior precisa ser posto à prova não apenas diante dos rivais, mas em condições adversas em muitos casos.
Como espectadores deste verdadeiro teatro grego, somos privilegiados de acompanhar tudo isso em tempo real. E que no dia 22 de fevereiro possamos celebrar as nossas comédias ou aprender com eventuais tragédias.












