Opinião: Os heróis e seus superpoderes nos Jogos Olímpicos de Inverno
Ouro de Lucas Pinheiro Braathen em Milão-Cortina 2026 mostra que atletas podem ser heróis não pelos seus feitos sobre-humanos, mas pela capacidade de inspirar as pessoas a cada edição Olímpica.

Rafael Bello/COB
*Por Gustavo Longo, especialista em Jogos Olímpicos de Inverno
Não vou me alongar muito no feito de Lucas Pinheiro Braathen para o esporte brasileiro no sábado, dia 14. Todos os adjetivos possíveis já foram escritos, ditos e digitados mundo afora. “Histórico”, “gigantesco”, “fenomenal”, “único”… Sinta-se à vontade para escolher pois todos são verdadeiros. O que o esquiador do Time Brasil fez nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 já o coloca em outro patamar. Tanto que ainda estou incrédulo: nós temos uma medalha Olímpica de inverno (e de ouro!).
Porém, os Jogos Olímpicos (sejam de verão ou de inverno) não se fazem apenas com resultados esportivos. São construídos, sobretudo, em cima de suas histórias.
Quando Lucas deixou a aposentadoria precoce de lado e resolveu dar uma nova chance ao esqui alpino, ele não queria simplesmente bater todos os recordes possíveis e acumular estatísticas para se orgulhar no fim de sua trajetória esportiva. Pelo contrário, sempre deixou claro que queria inspirar as pessoas a seguirem seus sonhos, a acreditarem em seu potencial e perceberem que tudo é possível. Tornou-se sua missão pessoal levar essa mensagem adiante toda vez que ele alinhar seus esquis.
Isso não significa, evidentemente, que ele não deseja vencer. Como todo bom atleta, Lucas Pinheiro Braathen possui o espírito competitivo. A questão é que o resultado nunca será tratado como fim, mas como meio.
Sim, ganhar a primeira medalha de ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno é muito importante. Sim, trouxe um reconhecimento enorme. Porém, o mais importante é o que ele faz com esses feitos. A cada entrevista e a cada postagem nas redes sociais ele reforça seu mantra: com trabalho, esforço e criatividade, todos nós podemos conquistar as nossas medalhas de ouro na vida, sejam elas uma promoção no emprego, o vestibular ou qualquer outra meta que a gente tenha pela frente.
Lucas tornou-se um herói e este é seu superpoder: inspirar mais e mais brasileiros com suas conquistas e carisma nos grandes eventos. Ontem mesmo já apareceram diversos relatos de famílias brasileiras que moram no exterior com filhos interessados em praticar esportes de inverno e representar o Brasil no futuro. Se eles serão ou não atletas de elite, não importa. O importante é cultivar essa mentalidade de Nação Esportiva a todos os cidadãos brasileiros, independentemente de onde eles estejam.
Felizmente, o esquiador não está sozinho nesta empreitada. Todos os atletas brasileiros de inverno competem para além dos resultados. A cada descida de trenó, passada de esqui ou manobra numa prancha, eles querem compartilhar seus sonhos e trajetórias para que mais pessoas se interessem e levem essa determinação adiante.
Nicole Silveira, por exemplo, terminou a disputa do skeleton em 11º lugar, a melhor posição do Brasil em modalidades de gelo, e saiu da pista já falando em recrutar jovens para a modalidade. Edson Bindilatti se prepara para sua sexta participação Olímpica e também pensa no exemplo que se tornou para jovens atletas.
Ontem, Lucas Pinheiro Brasil subiu ao lugar mais alto do pódio com a bandeira do Brasil em um esporte de inverno (feito que pode repetir nesta segunda, dia 16). No futuro, pode ser qualquer um de nós. Basta respeitar – e entender – nossas características e nunca desistir dos nossos próprios sonhos.
Fatos e curiosidades sobre a participação do Brasil no slalom masculino do esqui alpino.
Pela primeira vez desde a estreia Olímpica em Albertville 1992, o Brasil terá três atletas competindo em uma mesma prova nos Jogos Olímpicos de Inverno: Lucas Pinheiro Braathen, Giovanni Ongaro e Christian Oliveira Soevik. Confira algumas curiosidades a respeito:
Lucas Pinheiro Braathen pode se tornar no primeiro brasileiro da história a ganhar duas medalhas de ouro em uma mesma edição dos Jogos Olímpicos (seja verão ou inverno)
Em caso de vitória, Lucas integrará uma seleta lista de 15 brasileiros bicampeões Olímpicos, com nomes como Adhemar Ferreira da Silva, Robert Scheidt, Torben Grael, Sheilla Castro e Rebeca Andrade. Nenhum atleta brasileiro foi tricampeão olímpico até o momento.
Uma possível medalha já coloca Lucas Pinheiro Braathen numa lista de nove atletas do Brasil com mais de uma medalha em uma mesma edição Olímpica: Guilherme Paraense e Afrânio Costa (tiro esportivo em Antuérpia 1920), Gustavo Borges (natação, Atlanta 1996), César Cielo (natação, Beijing 2008), Isaquías Queiroz (canoagem, Rio 2016), Rebeca Andrade (ginástica artística, Tóquio 2020 e Paris 2024) e Willian Lima, Larissa Pimenta e Beatriz Souza (judô, Paris 2024).
Pela primeira vez o Brasil pode ter mais de um atleta presente na parte de cima da classificação final de um esporte nos Jogos Olímpicos de Inverno: além de Lucas, Christian Soevik e Giovanni Ongaro sonham com top 30.
Christian Oliveira Soevik seguiu a mesma trajetória de Lucas: filho de norueguês com uma brasileira, chegou a competir pelo país nórdico e resolveu trocar de filiação esportiva.
Com 21.14 pontos FIS, Christian Oliveira Soevik detém a segunda melhor marca de um brasileiro no esqui alpino, atrás apenas de Lucas.
Com 63.73 pontos FIS no slalom gigante, Giovanni Ongaro melhorou seu desempenho em relação ao slalom gigante disputado no Mundial de 2025.
Fatos e curiosidades sobre a participação do Brasil no bobsled 2-man
Esta será a sexta participação Olímpica do bobsled brasileiro em Jogos Olímpicos de Inverno, mas é apenas a terceira vez consecutiva que o país obteve vaga no 2-man
O trenó brasileiro terá a chance de conquistar o melhor resultado do país nesta disciplina, melhorando a 28ª colocação de PyeongChang 2018
O trenó das duplas pesa 170kg e deve ser empurrado no menor tempo possível em uma corrida de cerca de 50 metros. O peso máximo do conjunto (trenó + dois atletas) não pode ultrapassar 390,5kg no total.
Brasil é apenas o segundo país da América do Sul a disputar o Bobsled 2-man após as participações da Argentina em St. Moritz 1948 e Innsbruck 1964 – e o único em mais de cinquenta anos
Esta será a oitava prova de Edson Bindilatti na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. Apenas Jaqueline Mourão, com nove provas, competiu mais pelo Brasil.
Aos 46 anos Edson Bindilatti é o atleta mais experiente entre todos os esportes de trenó em Milão-Cortina 2026 e, ao lado de Kaillie Humphries (EUA), o único com seis participações.












