Quem é Lucas Pinheiro Braathen, melhor atleta brasileiro da história dos Jogos Olímpicos de Inverno
Brasileiro faz apresentação histórica e garante a primeira medalha brasileira em Jogos Olímpicos de Inverno

Foto: Rafael Bello/COB
O Brasil viveu neste sábado, 14, mais um capítulo marcante em sua história olímpica. Lucas Pinheiro Braathen conquistou a medalha de ouro na prova do slalom gigante do esqui alpino, em Bormio, na Itália. É a primeira medalha olímpica da história do país e da América do Sul em Jogos Olímpicos de Inverno.
Lucas Pinheiro Braathen
Nome completo: Lucas Pinheiro Braathen
Data de nascimento: 19 de abril de 2000
Local de nascimento: Oslo, Noruega
Em atividade desde: 2018
Trajetória no esqui alpino
O primeiro contato de Lucas Pinheiro Braathen com o esporte aconteceu no Brasil, mais especificamente nas ruas da cidade de São Paulo (SP). Após o divórcio dos pais, ele viveu por um curto período no país e, nesse tempo, teve a chance de jogar futebol com primos e amigos em escolinhas da capital paulista. A paixão foi imediata.
Durante a infância, seu grande sonho era se tornar jogador de futebol. Passava horas assistindo a vídeos de Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho no YouTube. Aos nove anos de idade, no entanto, decidiu dar uma oportunidade ao pai, que desejava apresentá-lo ao esqui alpino — modalidade muito mais popular que o futebol na Noruega. Apesar das dificuldades iniciais, essa experiência acabou sendo determinante para o rumo de sua vida.
Até então, Lucas enfrentava desafios de adaptação e identidade, sendo visto como “gringo” tanto no Brasil quanto na Noruega. Nas montanhas, porém, essa sensação desaparecia: ele era apenas mais uma criança viajando para esquiar. Foi ali que tomou a decisão de deixar o sonho do futebol para trás e se dedicar ao esqui alpino.
Sua evolução foi rápida. Aos 14 anos, passou a integrar a equipe norueguesa de desenvolvimento da modalidade. Dois anos depois, aos 16, tornou-se atleta federado pela Noruega junto à Federação Internacional de Esqui e Snowboard (FIS). Na temporada 2018/2019, quando tinha 18 anos, chamou atenção internacionalmente ao conquistar duas medalhas no Mundial Júnior de Esqui Alpino: prata no Super G e bronze no Combinado.
Estreia na Copa do Mundo, lesão e principais conquistas pela Noruega
Na mesma temporada, Lucas fez sua estreia em etapas da Copa do Mundo, surgindo como um dos jovens talentos do esqui norueguês. O primeiro pódio veio logo na abertura da temporada 2020/2021 — e foi uma vitória. Ele conquistou a medalha de ouro no slalom gigante em Sölden, na Áustria, momento em que passou a viralizar também entre o público brasileiro.
Menos de três meses depois, sofreu o episódio mais delicado de sua carreira: uma grave lesão com rompimento de ligamentos nos joelhos, que o afastou do restante da temporada e o impediu de disputar o Campeonato Mundial de 2021. O processo de recuperação durou oito meses, e seu retorno ocorreu na temporada 2021/2022.
Nessa volta, alcançou novamente o topo do pódio, conquistando ouro no slalom em Wengen, na Suíça. Ao longo da temporada, somou mais cinco pódios — três medalhas de prata e duas de bronze. Já nos Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing 2022, não conseguiu repetir o bom desempenho: perdeu o portão nas duas provas que disputou e acabou fora da classificação final.
A melhor fase da carreira até então veio na temporada seguinte, 2022/2023. Em 20 provas da Copa do Mundo, Lucas subiu ao pódio sete vezes (três ouros, uma prata e três bronzes) e terminou entre os dez primeiros colocados em 17 oportunidades. Esses resultados lhe garantiram o título da temporada no slalom, conquistando seu primeiro “globinho de cristal”.
A escolha de defender o Brasil
Já consolidado como uma das grandes estrelas do esqui alpino, Lucas Pinheiro Braathen surpreendeu o cenário esportivo ao anunciar sua aposentadoria aos 23 anos, na véspera do início da temporada 2023/2024. Em entrevista coletiva, comunicou oficialmente sua saída do circuito. A decisão foi motivada por divergências com a federação norueguesa, especialmente relacionadas à exposição de patrocinadores, regras de vestimenta e participação em eventos.
Ele manteve sua decisão. Alugou seu apartamento em Oslo, passou um período de férias em Ilhabela, no litoral paulista, e só retornou à Europa em janeiro de 2024, quando a temporada já estava em andamento. Convidado a participar de eventos ligados às etapas da Copa do Mundo, passou a reconsiderar a aposentadoria e a possibilidade de voltar às competições representando o Brasil.
Após alinhar-se com seus patrocinadores — que aceitaram a formação de uma equipe individual — e com a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN), anunciou oficialmente seu retorno em maio de 2024. Também obteve autorização da Noruega para a troca de cidadania esportiva, o que lhe permitiu manter seus pontos na FIS e estrear imediatamente na Copa do Mundo na temporada seguinte.
Sua reestreia como atleta brasileiro aconteceu na temporada 2024/2025. Mesmo largando em posições desfavoráveis, terminou em quarto lugar no slalom gigante em Sölden, na Áustria, e repetiu a colocação no slalom em Levi, na Finlândia. O primeiro pódio defendendo o Brasil veio no slalom gigante em Beaver Creek, nos Estados Unidos.
Ainda nessa temporada, conquistou mais quatro medalhas: prata em Adelboden (Suíça) e Kranjska Gora (Eslovênia), além de bronzes em Kitzbühel (Áustria) e Hafjell (Noruega). No Campeonato Mundial de 2025, porém, não obteve bons resultados, terminando em 13º lugar no slalom e 14º no slalom gigante.
Na segunda temporada competindo pelo Brasil, já com posição de largada mais favorável, Lucas voltou a se destacar. Até o momento — antes da pausa para os Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026 — disputou 17 provas e ficou entre os dez primeiros colocados em 14 delas.
São cinco pódios nessa fase, incluindo a medalha de ouro no slalom em Levi, na Finlândia — a primeira do Brasil em uma Copa do Mundo de esporte olímpico de inverno. Além disso, soma quatro pratas: Alta Badia (Itália), Adelboden e Wengen (Suíça) e Schladming (Áustria). Ele chega a Milano Cortina 2026 com uma sequência de nove provas consecutivas entre os cinco primeiros colocados.
Ligação com o Brasil
Apesar de ter nascido e vivido grande parte da vida em Oslo, na Noruega, Lucas sempre manteve uma relação próxima com o Brasil, país de origem de sua família materna. Seus avós residem em Campinas (SP), e ele também tem primos em São Paulo.
Em entrevista ao Olympics.com, revelou que o português foi sua primeira língua, incentivado pela mãe, Alessandra. Desde cedo, desenvolveu-se de forma bilíngue, aprendendo norueguês com o pai e na escola.
Mesmo após o divórcio dos pais, manteve laços frequentes com o Brasil, passando ao menos parte das férias no país todos os anos — hábito que diminuiu apenas durante a adolescência, quando passou a se dedicar integralmente ao esporte de alto rendimento. Aprecia a culinária brasileira, especialmente o churrasco, e tem forte ligação com a música, influência herdada da mãe.
Conhecido por seu perfil extrovertido, bem diferente do estereótipo mais reservado dos países nórdicos, Lucas gosta de cores vibrantes e ritmos tropicais. Antes das provas, costumava ouvir “Mas, que nada”, de Jorge Ben Jor. É admirador da bossa nova e do samba, além de ser fã de brigadeiro — doce que, inclusive, alguns fãs preparam para ele antes de competições.
Desde que passou a competir pelo Brasil, voltou a passar parte das férias no país. Nas pré-temporadas de 2024 e 2025 esteve em território brasileiro. Em 2025, iniciou um relacionamento com a atriz brasileira Isadora Cruz, apresentada a ele por amigos em comum. Torcedor do São Paulo Futebol Clube, já esteve no estádio do Morumbi para assistir a partidas.
Fora das pistas
Além da carreira esportiva, Lucas também atua como modelo e é patrocinado pela marca italiana de luxo Moncler. Durante o período de entressafra do esqui alpino, participa de desfiles nas principais capitais europeias e é presença constante em semanas de moda renomadas, como a de Milão, cidade onde passou a morar em 2025.
Reconhecido como fashionista e criador, Lucas também se dedica ao design de roupas e acessórios. Possui uma linha própria de óculos de esqui (goggles) da Oakley, foi o idealizador e responsável pela popularização do protetor de pescoço com as cores do Brasil e será o responsável pelo desenho dos uniformes da equipe de esqui alpino do Time Brasil para Milano Cortina 2026.
Ele também se aventura no universo musical e, em algumas ocasiões, atua como DJ em eventos paralelos às etapas da Copa do Mundo de Esqui Alpino.












